Silêncio

13/03/2014

Da penumbra que se formava pela chegada do crepúsculo via-se o rosto de Paulo a dormir calmamente sobre o lençol cinza amassado e o resto de suor nas dobras amarrotadas. Seu corpo estirado dormia um sono bonito. Ao seu lado eu. Profundo mar negro. O primeiro passo para a constatação da ausência. O negrume vai se tornando a ausência. Só a constatação de que há esse negrume que invade, marca tudo em ausência. Paulo dorme ao meu lado. Pernas entrelaçadas, braços tortuosos, respiração quase contida. Nenhum som. Só a ausência dos dois. O sono afaga suas partes.

O movimento do braço por cima do tronco nu, sem qualquer ruído. Um sonho abafado e um olhar semiaberto. Ele acorda também. Um olhar longo. Outro olhar longo. Amnésia de sons. Beijo Paulo. Um beijo mudo. Um tatear surdo.

No meio do silêncio parece que está tudo aqui, travado, sendo deglutido aos poucos, num rompante louco de querer me deglutir também. Tem algo aqui sem sentido, querendo ser sentido que está consumindo qualquer coisa que se possa chamar de alma. Tem algo aqui enclausurado que quer me matar. Tem algo aqui que pede uma gilete, uma navalha, uma fagulha, um veneno, uma bala, uma overdose, uma desistência. Tem algo aqui.

Desde que a paz me arrebatou a face eu me arrebentei aos poucos, tem algo aqui assim, que me dilacera. Eu não sei onde começa, não sei onde termina, não sei nem seu meio. Mas tem algo aqui. Não é algo novo, algo imberbe, é algo já sentido outrora. Deve ser da paz. Deve ser da tranquilidade, deve ser do sossego.

As horas morrem num ritmo alucinante e eu não sei o que dizer disso tudo. Eu não quero dizer nada. Eu quero essa coisa que me agride. Com certeza é a paz. Maldita paz. Ou isso mesmo, bendita ela. Ela que invadiu o meu coração e fez nascer essa agonia inclemente, essa prostração diante da vida, esse gosto de resolvido e de não há mais o que fazer: a paz está diante dos meus olhos, ou ainda, está dentro dos meus olhos. A paz é os meus próprios olhos.

Aliás, deve ser a paz não. É melhor o começo mesmo: deve ser da paz. Aprisionou-me nessa rotina louca de ficar inerte. Agora eu sei, o peso me apetece mais, a leveza é coisa pra quem busca a paz e não pra quem a possui inteiramente. Não quero a paz. Não preciso da paz. Eu quero é o sangue nos olhos. A confusão mental. O não saber o que se quer. Não me contenho, pergunto para Paulo uma pergunta que não tem sentido com o que eu penso, mas, talvez, tenha todo o sentido:

– Você acredita em amor?

– Acredito sim…

– É, ninguém é perfeito mesmo…

– Como assim?

– Nada não… Desculpe incomodar.

– Oxi, não entendi nada. Você chega assim de repente me perguntando se eu acredito em amor e não é nada?

– Tudo bem, é que eu não estou entendo mais nada. Não sei se acredito no amor. Talvez eu devesse não andar com pessoas que acreditem nele.

– E pra quê?

– Pra não precisar me preocupar quanto a isso.

– Como assim?

– Ah, é uma longa história, não vou te alugar com ela não.

– Que é isso, me conta aí, vai…

– Mas você acredita em amor, não quero ficar falando sobre isso com pessoas que acreditam em amor.

– Credo, que preconceituosa você.

– É, fazer o que… Ninguém é perfeito.

– Mas você acha que nem falar comigo você pode, só porque eu acredito no amor?

– Um bom tanto.

– E por quê?

– Porque tudo o que eu falar você vai entender de acordo com a sua perspectiva de acreditar no amor. A gente não vai ter um diálogo plenamente inteligível, uma vez que estão os nossos discursos de maneira, assim, tão oposta.

– Mas e algum diálogo é plenamente possível?

– Tá, xeque-mate… Mas acho que perdi a vontade de falar sobre isso com você. Na verdade, eu nem queria falar sobre isso, talvez eu quisesse somente te perguntar: “você acredita em amor”?

– Tá, acredito. Eu acho. Você perguntou tão de repente que eu não consegui pensar direito sobre o assunto.

– E agora, consegue pensar mais calmamente? E dizer se acredita ou não em amor?

– Hum, tá, acho que acredito mesmo.

– Você anda achando demais…

– Tá certo, tá certo… Eu acredito no amor, não acho nada…

– Eu não acredito.

– Sério?

– Sério.

– E isso tem algo a ver com a gente?

– Não, nem precisa colocar umbigos no meio não… É só algo comigo mesma. Eu não acreditar no amor não me causa nada em relação ao meu gostar de você. Gosto de você, muito. Você sabe disso. Você sente isso. Se não sente, deveria prestar mais atenção, porque eu gosto de você.

– Você tá se defendendo demais. Será mesmo que não tem nada a ver?

– Tem não. Eu acho.

– Agora é você que tá achando…

– Tudo bem, eu sinto.

– Hum…

– Vou pra casa. Não estou me sentindo bem.

– Dor na alma?

– Quase isso. Não sei se alma existe.

– Você tá meio descrente de tudo, não?

– Descrente? Talvez… Mas nunca cri muito em nada mesmo.

Dei um beijo em Paulo, ele me olhou com aquela delicadeza de sempre, com aquele açúcar e aquele afeto, gesticulou com os lábios formando a frase “Eu acredito no amor”. Eu quase ri. Deitei um minuto em seu peito, afaguei os pelos que o contornavam e me levantei. Ainda a tempo de o olhar estirado na cama, algo de mágoa no canto de seus olhos e uma carência de sorriso estampada em tudo nele. Do mais contido do meu eu que podia haver, sorri-lhe em correspondência. Mandei um beijo contido e pude sentir que seu olhar se aliviava mais. Eu não conseguiria sair se ele ficasse estirado apenas em mágoa ali na cama. Com a cabeça mais solta, fui embora. Talvez eu não voltasse nunca mais. Não para ele, mas para mim.

A Papisa. Foi essa carta que saiu. Tanta coisa a se pensar, a sopesar. Se essa ausência é sabedoria, se o contrário, pura burrice, se vem de dentro como um rebento, se vem de fora como um pau. Se é mesmo sabedoria. Pode ser apenas falsidade, como a própria Papisa flagrada enquanto mulher. O embuste, a danação.

A Lua. Eu não me tenho mais. É tudo uma grande ilusão.

Já é manhã. Eu não sou eu nem sou outra. O silêncio inunda minha varanda, mesmo com o dia consumindo toda energia do sol. Mil barulhos selem os meus ouvidos e me calem de mim mesma. Mil manhãs se criem noites e me amansem dessa coisa intermediária. Eu já não sei quem sou, parece que já fui. Agora é essa claridade absurda, a pura marca da ausência, um dia ensurdecedor avança por todos os lados e eu não escuto nada. A brancura percorre a carne, o cerne, a vida. Não há previsão futura. O problema não é a paz, é não saber o que fazer com ela, daí decreto guerra a mim mesma. Adormeço assim, deitada no chão, encolhida, rendida. Bandeira branca “amor” e há tristeza em minha vida…

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Geleia radioativa

13/03/2014

Devagar pela orla dos velhos tempos materializada ainda no agora, Paulo deslizava nas ruas de paralelepípedos promotores de um trotear irregular e tropeçante, numa noite de tons cinz’alaranjados e de tato ardente quando do encontro da pele com o ar, noite que punha em brasa qualquer vivente. Na cabeça afeta por uma ondulação curvilínea de depois de algumas horas de bar e de alguns dias de intensos debates sobre o bem da humanidade, flutuavam ideogramas de solução, letras carregadas de impassibilidade, charadas inconclusas de fanfarrões de boteco, reflexos e espasmos sensoriais de música percorrendo os pelos e até mesmo fluxos turbrilhantes de dores aquosamente amorosas.

Paulo tentava chegar até o quarto que alugava e que ficava numa rua afastada do centro da cidade. A cidade era pequena, diminuto rincão perdido no meio do Brasil. Paulo quebrava de uma rua para outra, num labirinto de paralelepípedos vacilantes.

– Ei! Vociferou alguém quando Paulo cruzou um beco. Ele parou, olhou para o escuro e não conseguiu ver qualquer pessoa. A voz retornou: você poderia me dar uma ajuda?

– Acho que sim. Paulo respondeu adentrando o beco. Depende de qual é o seu problema, completou.

– Bom, primeiro de tudo, disse a voz, não chegue muito perto. Estou completamente banhado por uma loção radioativa.

“Puta que pariu, deve ser pegadinha”, conjeturou Paulo, detendo-se de frente à escuridão. “Será que eu dou no pé antes do cara apertar a minha mão com um choque e falar, olha ali para aquela câmera…”.

– Não se preocupa que não é pegadinha… Disse a voz de dentro da escuridão. Será que você conseguiria arranjar um cobertor e umas duas latas de extrato de tomate para mim?

– Hã? Indagou Paulo com uma cara de TV Globo.

– Se você conseguir Elefante é melhor ainda…

– Qualé, doidão nuclear? Você tá é tirando onda com a minha cara. Eu tô indo nessa. Falou Paulo tirando um cigarro do bolso e começando a caminhar.

– Não! Não acenda esse cigarro! A gente corre sérios riscos se você acender esse cigarro. Disse a voz com um ar extremamente grave. Deixa eu te explicar só uma coisa, eu criei essa loção nuclear num experimento para elaborar uma fórmula da invisibilidade, só que não deu certo.

– Aiai… Essa hora da noite e eu tenho que escutar um troço desses… Eu atraio louco mesmo na minha vida. Então ta, ô Sr. Cientista Maluco, Professor Pardal, sei lá… Para que diabos você precisa de um cobertor e duas latas de extrato de tomate? E que porra de elefante é essa que você disse?

– Olha só, além de inventar essa loção, que só deu errado porque substitui o álcool por acetona para ver no que dava, eu descobri que o extrato de tomate, quando diluído em água e misturado com areia pode neutralizar a radiação…

– Sei, sei… E onde entra o elefante nessa história?

– É que o extrato de tomate Elefante é melhor, ele é mais concentrado.

– Ah sim, é o Elefante do extrato de tomate… Disse Paulo ponderando a situação. Sério que você não tá fazendo uma pegadinha? Daqui a pouco chega um idiota fantasiado de Jotalhão me dizendo que eu acabo de ganhar um carro zero quilômetro…

– Te juro que não é pegadinha. Veja só isto. Foi quando um brilho saiu de dentro da sombra. Era algo disforme e bem esquisito. Parecia o Geleia dos Caça-Fantasmas, só que dava uns espasmos luminosos de quando em quando, lembrando uma massa de pão, só que verde. Paulo sentiu um profundo nojo ao ver aquela coisa absurda.

– Puta que pariu brother! Que que é isso? Fala alguma coisa pra eu ver se vem disso aí mesmo a voz…

– Bem, alguma coisa. Disse a massa disforme.

– Caralho! Que bizarrice é essa?!

– Por isso eu quis te poupar, preferia que não visse esse meu estado deplorável de nojo e asco.

– Ok sujeito atômico. Guenta firme aí que eu vou descolar as massa de tomate e a coberta. Mais alguma coisa além disso?

– Um balde. De preferência de metal.

– Ok. Segura a onda então…

– Ah, tem mais uma coisa.

– Manda.

– Tem um miojo também?

– Miojo? Não vai dizer que ele também é uma boa arma contra emanações nucleares?

– Não, não, é que eu não comi nada desde de manhã…

– Ok, vou ver o que posso fazer por você.

Paulo saiu dali um tanto atordoado. Era difícil acreditar naquela história toda. Mas ele viu a massa de pão verde falar com ele e ainda ficar brilhando. “Será que o extrato de tomate resolve mesmo?” indagava-se Paulo a todo instante. “Bom, mas o cara disse aquilo tudo e ele era aquela coisa agora, algum sentido deveria fazer”.

Paulo apressou o passo e quase caiu umas três vezes devido às ruas de paralelepípedos tortuosos. A noite tinha um ar já mais calmo, muito embora, havia ocorrido aquele fato tórrido. Quando Paulo chegou ao seu quarto apressou-se: pegou o cobertor, deu-se por satisfeito quando viu que havia uma lata fechada de extrato de tomate e uma pela metade dentro do frigobar e foi até a área de serviço procurando um balde de plástico.

Saiu correndo pela rua e quando já ganhava o mundo, lembrou-se o miojo. Voltou pegou um miojo sabor carne e tomate e saiu correndo de volta. Ele não podia pensar muito, queria mesmo tentar ajudar o pobre Geléia radioativo.

Quando chegou perto do beco escutou uns gritos: “sai daqui! Passa, passa!” e uns grunhidos de cachorro. Rapidamente Paulo correu até o beco, largou as coisas no chão e jogou umas pedras no cachorro.

– Muito obrigado novamente, falou o Geléia.

– Que é isso cara, como eu ia deixar de ajudar um cara na sua situação…

– Bom, precisamos ser rápidos. Não sei quanto tempo mais eu posso aguardar nessa situação. Não consigo me mexer muito bem, por isso, preciso que você faça os preparativos. É só colocar o extrato de tomate no balde e colocar um pouco de água com essa areia de construção aqui do lado…

– Puts cara, mas você vai usar essa areia aí mesmo? Deve estar cheia de xixi de gato!

– Eu sei disso, mas é um risco a correr. Não posso perder mais tempo!

Rapidamente Paulo correu até o córrego que ficava no final da rua, encheu com água o balde e despejou o extrato de tomate. Reparou que não era extrato, era polpa, mas não pensou muito no processo, apenas colocou um pouco menos de água. Quando chegou ao beco novamente viu que a massa radioativa começava a ficar mais rígida e que ela soltava uns gemidos baixos.

– Cara, você ta bem? Perguntou Paulo.

– Não sei, me sinto estranho…

– Aguenta as pontas bicho. O que eu faço agora? Despejo a sopa em você?

– Não, não… Falou a coisa nuclear um tanto moribunda já. Molhe o cobertor com o soro de extrato de tomate, depois coloque-o por cima de mim.

Paulo não pensou, apenas fez. Despejou a meleca de tomate em cima do cobertor e enrolou o Meleca radioativa. O sujeito – quer dizer, a coisa – começou a se estremecer toda e soltar vários raios de luz. Paulo correu para longe e ficou olhando a coisa tomando forma de gente enquanto um cheiro de merda tomava conta do lugar. A geleia verde foi tomando forma, tomando forma, dava pra vê-la virando algo que parecia gente. Quando já estava naquela coisa meio gente meio ET, os raios de luz pararam e o sujeito se levantou. Paulo olhou ressabiado e foi se aproximando.

– Ei, tu não era gente?! Perguntou Paulo.

– Oh, você ainda está aí, falou o agora ET. É, acho que deu meio errado a transformação… Ele falou um pouco envergonhado.

 – Meio? Porra, se tu era meio assim, pra geleia radioativa faltava pouco.

 – Vou te falar a verdade.

 – Ih, tava demorando…

 – Eu não sou humano, sou um extraterrestre e havia sido enfeitiçado por um mago. Descobri que a única forma de me livrar do feitiço era uma infusão de sopa de tomate com areia.

 – Hum, sei. E quem te ensinou a se livrar do feitiço foi o que? Uma fada?

 – Exatamente, como você sabe?!

 – Sei lá, foi só chute. Mas me conta aí, por que um mago te jogou um feitiço?

 – Ah, foi porque eu me apaixonei pela mesma pessoa que ele. E ela havia me escolhido ao invés do mago…

 – Ah maluco, vá… Resmungou Paulo saindo fora daquela situação e deixando o geleia – quer dizer ET – prostrado sozinho na rua.

Paulo andou tranquilamente até sua casa e fumou dois cigarros no caminho. Antes de se deitar e finalmente dormir ficou matutando um pouco: “caralho velho, que porra foi essa? Perdi, dois molhos de tomate, um balde, um cobertor e um miojo de carne com tomate por conta dessa… Que merda, desde quando extraterrestre se apaixona?” Não dormiu um sono dos justos, dormiu um sono dos injustiçados.

Hemofilia

20/09/2012

Existe um rastro de sangue atrás de mim. Não cometi crime algum. Não matei nenhum exemplar da minha espécie, à revelia que a minha espécie seja a da espécie que vive – recuso-me a me enquadrar na categoria pura do primata bípede com um cérebro altamente desenvolvido imiscuído nessa coisa místico-mágica chamada cultura que paira sobre a minha cabeça – e tenha, em algum lugar do passado, matado, de próprio punho e machado em riste, uma amostra dessa minha espécie que vive, mais especificamente, uma do tipo chamado bovino. À revelia também que tenha matado aquela roseira por falta ou excesso de água, ou aquele hortelã pelo puro descaso. À revelia também, que tenha matado indiretamente um não sei quanto de galinhas, peixes, bodes, porcos e outros tantos mais desses momentos dessa espécie viva em que me enquadro. Mas isso tudo não é crime, é costume, é cultura, é tradição.

O rastro de sangue que me segue, é de um sangue já coalhado, já putrefato, já bactérias que fixaram o nitrogênio nosso de casa dia, já verme e minhoca, já solo, já eu. Tentei por várias vezes seguir esse rastro, mas o acaso da presença eterna e a falta de tino com os fatos históricos e as fontes da matéria do pretérito, me fazem retroceder, sempre que o sigo, a mim mesmo. Esse rastro de sangue que me é.

Saber o momento exato, o ponto preciso em que inicia o rastro é coisa difícil. Vislumbro horizontes de mato cerrado, água e degredo para todos os lados, desertos bérberes, caudais de água doce em cachoeiras armados, armazéns árabes, longínquas savanas e coloniais telhados. São essas as paisagens às quais percorreu a teia emaranhada que forma o rastro de sangue atrás de mim. Vejo todas as gotas dos pés presos pelo laço, do tiro de espingarda, da facada nas têmporas, das naus nauseabundas, dos porões fétidos e infectados, da catana nas pernas, da cimitarra nas costas, do chicote e da chibata, da corrente na goela, do tronco, do eito, dos espinhos de macambira e favela revelando no corpo as marcas das fugas, das tantas, das todas, das tentativas e das consolidações.

Léguas de trilhas e caminhos ensanguentados, lagos, lagoas e barragens de plasma vermelho intenso. O dilúvio, o mar vermelho aberto, tudo sangue correndo atrás de mim. O salvador andou em cima foi de um mar de sangue.

Nas quebradas, nos baixios, nos mocambos, nas malocas, nos quilombos, nas comunidades, nas periferias, nos capões, nas chaparrais, nos morros, nas moitas, nas favelas, nas gerais, nas aldeias, nas beiras de estrada, nas quadras, nos acampamentos, nos umbrais, esse rastro de sangue segue atrás de mim, corre, flui, e se dissolve pelos poros dos corpos e das terras, move a máquina até o limiar, até o limite de virar outro sinal, outro ponto de conexão do rastro.

Há esse rastro de sangue que percola minhas células atrás de mim, que bombeia os átomos por todos os páramos, chapadas, picos e vales do meu ser. Eu sigo e me movo pelo rastro, não com foco em o entender, descobrir o seu início ou todos as suas ramificações e seus canais. É por causa desse sangue todo vertido que serpenteia atrás de mim, que me desperta a kundalini, e me afia a língua, o pulso e o punho, que eu sigo. Mais um momento desse rastro que há de se voltar como plasma afiado contra tudo e contra todos que fizeram o rastro existir. Eu sou todo esse sangue.

Eu, sigo sangue.

Antônia acordou cedo e sentiu que a manhã estava agradavelmente solar. Ficou ainda um tempo curtindo o próprio em sua rede. Com uma perna dependurada e a outra em um pretenso alongamento sentiu ainda algumas coisas: preguiça de escovar os dentes, um breve frio vindo no ar seco da seca, o cheiro de café recém coado na cozinha. Num sobressalto, levantou-se de uma vez e foi direto pra cozinha. No caminho, tropeçou no que parecia ser um boneco de madeira: “Ah essa Flora, se eu pego essa moleca deixando as coisas pelo chão de novo eu vou lhe dar um croque”, mentalizou enquanto servia um copo inteiro de café. Pingou ainda um nada de leite “só pra dar uma folga ao estômago”, como sempre falava.

Calmamente, sentindo os raios de sol iluminando seu rosto e o cheiro do café se imiscuindo ao vento empoeirado que se apoderava dela, atravessou a porta da cozinha e foi devagar até sua mangueira preferida que permitia pelas manhãs curtir o sol em sua cabeça. Com as pernas abertas e a saia embolada para tampar a sua falta de calcinha noturna, ficou ali, enrolando o toco de seus curtos cabelos em meio a pequenos espasmos daquele calafrio que se sente quando o motor da alma ainda está se esquentando pela manhã, perguntou-se onde andaria Paulo com sua cantoria matutina e Marta com sua sinfônica mecânica consertando aquele carro. Ficou ali um tempo ainda envolta em seu silêncio, admirando os risos longínquos de uma conversa animada e pausando a barriga no cheiro doce e gorduroso do que parecia ser umas bananas fritas. Mentalmente repassou o que tinha de fazer aquele dia: revisar o texto antes que Damião fosse encontrar Silas, fazer a prova dos doces para Alberto, cuidar dos meninos com a Alice pela tarde.

É, até a noite teria muita coisa para fazer, o problema era aquela preguiça que queira se apoderar dela, refletiu que só ficaria mais alguns minutos curtindo o sol e depois iria revisar o texto para a pauta da reunião com os maloqueiros. Enquanto o sol lhe cobria o branco da cara, passava a mão nas magras panturrilhas sentindo o alto relevo de sua tatuagem em braile que dizia: “Para o alto e avante!”. Riu leve de sua inclinação porra-louca da adolescência e gostou da frase estampada em sua pele. Quando ia se levantando para começar a lida do dia, escutou o barulho de alguém entrando no córrego. “Pelo amor, que coragem desse ser… se jogar na água num frio desses?”, matutou consigo enquanto se encaminhava até a beira do Véizim D’Água para descobrir quem era que se espatifava na água daquele jeito.

– Bom dia pessoa calorosa – disse Antônia falando para a esquerda e para a direita enquanto tentava situar onde estava a pessoa.

Ninguém respondeu. Antônia escutava nitidamente uma pessoa na água, ela parecia se divertir bastante, escutou melhor e percebeu que ela estava mais à direita. Caminhou então cuidadosamente mais alguns passos em rumo do som e não se conteve, falou mais uma vez:

– Ei! Quem está aí? Parece que tá tão divertido que eu to quase querendo perder o medo da água fria…

De novo não houve resposta, mas dessa vez o barulho se cessou e um silêncio profundamente perturbador se apoderou do lugar. Antônia se incomodou daquele silêncio todo, deu mais alguns passos para a frente e perguntou mais uma vez:

– Poxa, é sacanagem não dizer quem é. É você Marta? Tá dando uma de sereia uma hora dessas da manhã?

Novamente, nenhuma resposta, mas Antônia escutou um movimento brusco de dentro da água, parecia que a pessoa se levantara, escutou um grunhido exitante e um andar pela água em seu rumo. Alguma coisa diferente acontecia no ar, sentiu que a pessoa parecia mexer os braços freneticamente. Ficou um pouco com raiva da situação e berrou:

– Ah, quer ficar nessa brincadeira aí pode ficar, tenho mais o que fazer – disse Antônia virando-se bruscamente.

No momento em que ia começar a caminhar não percebeu o cipó que havia se soltado recentemente do pé de jatobá ao lado do caminho, enrolou-se no mesmo, desequilibrou-se e caiu desajeitada na beira do Véizim D’Água. Ficou extremamente irritada e ainda mais quando sentiu que uma risada abafada se fazia na pessoa que estava no córrego.

– Ô seu espírito de porco, me ajuda aqui que eu ralei a perna toda!

Prontamente a pessoa foi em direção de Antônia e a ajudou a se levantar. Antônia percebeu que era uma mulher: as mãos miúdas, o braço sem pelos, os seios duros que tocavam leve suas costas enquanto passava os braços em seus ombros para lhe ajudar a subir. Tentou se atinar de quem poderia ser a pessoa, mas não conseguia fazer referência a nenhuma das mulheres e garotas dos Ariras. “Quem diabos é você?”, pensou consigo.

– Valeu, mas quase me estrepei. Esse ralado aqui vai arder bastante depois. – Disse Antônia.

A garota ajudou-a a subir a pequena ribanceira e a sentou debaixo de uma mangueira. Antônia estranhava que ela não falasse nada, só sentia a sua respiração quente e seu corpo concentrado sobre a ferida que sangrava. A moça bateu de leve na perna de Antônia como que solicitando que esperasse um pouco e saiu. Antônia ficou ali, sentindo o sol se esquentar e a manhã ganhar força em dia pleno, quando ouviu os passos da moça se aproximando.

A moça se ajoelhou no chão ao lado de Antônia. Ela sentiu quando a moça espremeu um pano molhado em cima da ferida, deixando a água cair sobre o ralado e sentiu quando a moça colocou algumas folhas em cima do machucado e o enrolou com um pano molhado. Antônia ficou atônita. “Quem é essa pessoa?”, matutou novamente.

– Obrigada – disse Antônia –, quem é você? Não te conheço, conheço?

A moça pegou as mãos de Antônia, levou-as até sua cabeça e balançou em sinal de negação.

– Você não fala?

A moça soltou as mãos de Antônia, ficou de cócoras em frente a ela e grunhiu alguma coisa, que saiu em alto som, como se tentasse falar algo, mas nada fazia sentido para Antônia. Foi aí que lhe veio um estalo:

– Você é surda?

A moça pegou as mãos de Antônia novamente, levou até sua cabeça e balançou em sinal afirmativo.

– Poxa, desculpe-me, e eu fiquei ali te azucrinando.

A moça encostou levemente as mãos nos rosto de Antônia e fechou seus olhos que ficavam meio abertos o tempo todo.

– Sim, eu sou cega. Nasci assim. – Um silêncio foi vindo lentamente entre as duas, como se o instante das deficiências descobertas fosse o fim das possibilidades interativas, mas Antônia o interrompeu, tocando com as duas mãos a cabeça da moça. – Você é nova aqui, né? – Ao que a moça respondeu afirmativamente. – Poxa, queria saber o seu nome. O meu é Antônia. Mas, espera aí, como você me responde se você é surda? – A moça riu e tocou de leve os lábios de Antônia.

– Caracas, pode crer, dá pra ler os lábios. Tenho que falar mais calmamente, não é isso? – perguntou Antônia ao que a moça consentiu com a cabeça. – Mas então, ainda não sei seu nome…

A moça então abriu a palma da mão de Antônia e escreveu com os dedos: R, O, B, E, R, nesse “R”, Antônia interviu:

– Roberta? – A moça fez um legal com o polegar e o balançou na mão de Antônia. – Que legal, conseguir saber pelo menos seu nome. Você chegou aqui quando? – Roberta desenhou um três na palma da mão de Antônia – Três dias? – perguntou Antônia enquanto Roberta afirmava positivamente com o polegar na mão de Antônia.

Roberta sentou-se ao lado de Antônia e ficou olhando para ela um tanto. O silêncio agora se apoderava mais calmo, brando como a manhã se iniciara. Roberta ficava ali, olhando tudo aquilo ao seu redor e com cara de alumbramento imiscuído à felicidade. Se Antônia pudesse, veria um sorriso leve e sorrateiro no canto da boca de Roberta.

Antônia guardava o toque de Roberta em sua pele. “Macia essa pele, ela deve se cuidar bem”, pensava enquanto começava a enrolar seus curtos cabelos, “preciso me cuidar melhor, devo estar um bagaço”. Um silêncio gritado do vento tomava as duas, Roberta bateu na perna de Antônia no mesmo movimento de espera feito antes. Antônia escutou seus passos se afastando no rumo do córrego, atinou-se com o Véizim D’Água e ficou escutando-o por algum tempo. Escutou uma conversa na casa de Jaci e ouviu a voz de Paulo falando algo. Ouviu Marta e Jaci conversando alguma coisa sobre camarões e de repente ouviu os passos de Roberta se aproximando. Ela sentou-se ao lado novamente e acendeu um cigarro, pegou o maço e os fósforos e colocou na mão de Antônia.

– Ah, será? Faz tanto tempo que eu não fumo. Ah, tudo bem, só unzinho, vai dar até uma tontura.

Roberta não leu nada, ficou olhando para a casa que se via ao lado e fumando calmamente seu cigarro e aparentando uma sensação de explosão interna. Felicidade sem porquê, só sendo. Olhou de rabo de olho e viu Antônia acendendo um cigarro, viu a tragada grande e tensa, daquelas que valem a pena fumar. Baixou os olhos e viu uma borboleta pousada na ponta da saia de Antônia. Vagarosamente foi com a mão no rumo da borboleta até que conseguiu pegá-la. Olhou bem de perto e viu a poeirinha que saia de suas asas, pegou uma mão de Antônia, colocou a borboleta em sua mão e foi fechando-a devagar. Antônia sentiu uma leve cócega na palma da mão e conseguiu entender que Roberta tinha colocado um bicho em sua mão.

– Essa coisa faz cócegas – disse rindo Antônia. – É o que? – Roberta começou a escrever com o dedo na coxa de Antônia acima do machucado: B, O, R, B… – Borboleta! – Exclamou Antônia. – Olha só, nunca tinha sentido uma borboleta. Deve ser bem bonitinha. Quando era criança e me falaram a primeira vez sobre borboletas, fiquei na cabeça que elas deveriam ser de uma cor quente, mas depois descobri que elas tinham várias cores. Essa quente como uma rosa vermelha? – Roberta olhou a borboleta azul na mão de Antônia, abriu sua mão e a borboleta saiu voando, deu um gás de liberdade longe depois voltou bem perto da orelha de Antônia. – E então, era rosa, vermelha, essas cores quentes? – Roberta respondeu positivamente com a mão enquanto olhava a borboleta azul pousando em algumas folhas, talvez para respirar melhor depois de sua prisão, talvez pensou que o azul também fosse quente. Ficaram as duas ali, fumando seus cigarros e vendo o tempo passar. – Que linda! Disse Antônia.

Antônia escutava de quando em quando o voo de uma borboleta, tinha certeza de que era a borboleta rosa. Roberta não podia escutar, sentia apenas vibrações próximas de quando em quando, mas se confundia ao pensar se era a borboleta ou uma libélula que tinha reparado há pouco.

Quando o cigarro acabou, Roberta pegou a mão de Antônia e escreveu: D, E, P, O, I, S, V, O, L, T, O. Levantou-se deu um beijo no rosto de Antônia e falou um quase “Tchau” bem fanho e engasgado.

– Tchau querida, volta mesmo, quero saber mais sobre você! – Respondeu Antônia levantando-se e pensando sobre o tom áspero de barba por fazer que havia sentido no rosto de Roberta quando ela lhe beijou.

“Barba?”, pensou Antônia consigo, “bom, sei lá, gostei dela e não tenho tempo pra ficar pensando no sexo dos anjos… Bem verdade que nesse caso nem é dos anjos, é no sexo dela…”, arrematou na cabeça, “É, gostei dela… Tanto tempo que não simpatizo com alguém à primeira vista…”, concluiu irônica enquanto entrava em casa.

Enquanto arrumava a mesa do computador para revisar a pauta da reunião, ficou com uma frase que não saia da cabeça. Quando ligou o computador, a primeira coisa que escreveu não foi nada sobre a pauta, mas versos que poderiam tomar corpo algum momento: “borboleta é uma beleza que faz cócegas / barba por fazer também”.

Contato

19/11/2010

– Bom dia! Ou melhor, boa tarde… – disse um moreno de cabelos encaracolados dirigindo-se para Eliane.

– Boa tarde – retrucou Eliane tentando recordar-se quem seria ele.

Ele veio no rumo de Eliane. Era um moreno bonito, mas nada de mais nele. Entrou em casa, demorou um pouco e voltou com uma toalha nas mãos, estava com os cabelos molhados da água da chuva, um cheiro forte de suor. Uma mistura de suor, lama e água da chuva.

Os outros estavam conversando alegremente em meio à chuva olhando para o fim do vale enquanto um baixinho falava algo. O moreno de cabelos encaracolados começou a se secar, olhou para Eliane, pegou uns óculos que estavam em cima de uma cadeira e falou com ela:

– Dormiu bem Eliane? Ontem a noite você foi a última a ir dormir, pensei que não iria acordar tão cedo.

– Dormi como uma pedra, se é que as pedras dormem… – respondeu Eliane enquanto olhava o rapaz de forma estranha. Ele era um cara um tanto fora de forma, barriga caída, braços não musculosos, canela fina, um típico barriga de chope. Mas ainda assim ele era uma figura bonita. – Desculpe, mas como é seu nome?

– Ah, não se lembra? Meu nome é Gabriel. – E estendeu a mão para Eliane. Ela o cumprimentou e ainda perguntou:

– Onde é que a gente está? Não me lembro direito de ontem à noite.

– Bom, estamos na Comunhão Sustentável do Planalto. Sua amiga Ana Clara que trouxe você aqui.

– É, disso eu me recordo…

– Lembra da grande roda?

– Mais ou menos…

– Você foi ótima! A sua imitação dos sapos foi excelente!

Eliane não se recordava de haver imitado sapos. Só se lembrava da fogueira e das pessoas em sua volta. De repente o resto do pessoal chegou. Ana Clara abraçou Eliane e beijou sua testa. Eliane não compreendia ainda muito bem as coisas, começou a se lembrar que Ana Clara havia dito que conhecera um pessoal muito legal e que havia um rapaz chamado Gabriel que era um anjo. “Seria o mesmo de agora?” perguntava-se.

Todos conversavam muito alto e o baixinho falava em tom bem sério:

– É sério… eu juro que eu vi a nave ficar quase rente ao chão, bem ali, perto dos buritis. Mas se vocês não acreditam é problema de vocês!

Todos começaram a zoar muito o baixinho e todos pareciam se conhecer muito bem. Em meio àquela confusão de gozações, Eliane reparou em Sabrina, ela estava meio cabisbaixa, com o olhar perdido no chão. Criou coragem, levantou e foi até ela.

– Tudo bem Sabrina?

– Tudo. – Respondeu secamente Sabrina. Eliane ficou um tanto desconcertada, mas insistiu ainda mais um pouco:

– Resolveu mudar um pouco de ambiente?

– Às vezes tudo cansa… você não acha?

Eliane sentiu um frio percorrer-lhe o corpo todo. Sabrina havia falado como seu irmão Heitor falara pouco tempo antes de se matar. Heitor era uma pessoa muito boa, um ser realmente especial, desses que não se faz mais. Rapaz de coração bom, olhar sincero, mas fatidicamente revoltado com o mundo. Era uma revolta estranha, velada. Quando se sentia com ódio do mundo só balançava a cabeça e começava compulsivamente a escrever poesias. Eram poemas quase sem nexo, mas que para ele possuíam toda a lógica possível. Um dia se cansou, pulou da plataforma da rodoviária direto num caminhão. Traumatismo craniano foi o laudo da autópsia. Nem uma lauda sobre a culpa do mundo, nem uma linha sobre o espírito do tempo, nem uma palavra sobre sua alma. Coisa parecida somente em seu crematório, onde Ana Clara aos prantos leu alguns de seus poemas mais inteligíveis. Ninguém sentenciou o mundo: “a culpa é dele!”, sentenciavam todos. Só Eliane e Ana Clara entendiam, só elas sabiam a parcela de culpa do mundo, eram as únicas juízas honestas naquele júri. Foram para casa juntas e dormiram juntas na noite do crematório. Eliane chorou até mais que Ana Clara.

Eliane olhou Sabrina e tremeu. “Será que ela está a pensar nas mesmas coisas que Heitor?”. Não fez questão de continuar o pensamento, olhou a sua frente e viu Gabriel beijando Ana Clara na boca, achou bonito ver os dois juntos. Estava muito absorta em contemplá-los quando alguém se aproximou e perguntou:

– Minha louquinha… – Eliane sabia que era Armando que falava. – Como está? Ainda está escrevendo merdas para aquele louco do Dod?

– De vez em quando. E você? Continua mexendo com coisas erradas?

– Que é isso? Não soube? O tribunal dos maloqueiros me pegou feio, olha as marcas nas costas – Armando mostrou umas cicatrizes feias que pareciam de chicote. Pilhagem e uso indevido de armas.

– E você está se orgulhando disso?

– Calma. As pessoas mudam. Sempre mudam. E além disso, criminoso todos nós somos, a gente já discutiu isso antes. Mas… agora sou outro, o mundo precisa de muita coisa a ser feita, não se pode gastar energia à toa.

– Quem te viu, quem te vê… cadê o discurso do “à merda com a ética e os valores”?

– Foi sepultado. Junto com o que sobrou de ruim de minha pessoa… Mas… vamos falar de outro assunto. Como é que estão as coisas? Ainda mexe com aquele projeto de levar filosofia até as criancinhas?

– Sim.

– É… bonito trabalho. Queria saber mais dele depois. Se importaria se tomássemos um chá e conversássemos depois?

– Tudo bem, desde que não falemos muito sobre o passado.

– Que é isso? O passado é isso mesmo e falar sobre ele dá azar… – e deu uma risada – mas veja que eu vou cobrar o chá depois, viu?

– Ok.

Armando levantou-se e adentrou a casa. Todos começaram a entrar e chamavam Eliane para almoçar. A chuva havia parado e Eliane foi para perto de Ana Clara e Gabriel. As pessoas se serviam e Eliane sentou-se ao chão, ficou observando todos, explicou que não havia resistido e que já comera. O almoço prosseguiu animado. Lia apareceu, sentou-se ao lado de Eliane e puxou papo.

– Você trabalha com o quê?

– Era jornalista, mas depois que os jornais acabaram precisei fazer outras coisas, daí comecei a dar umas aulas em troca de alguma comida.

– Você é professora! Não parece… sem querer ofender viu? Você dá aulas de quê?

– Tenho dado aulas de filosofia.

– Nossa! Agora sim, tenho com quem conversar, esses peões aqui acham uma chatice falar sobre o ser, sobre a existência, sobra a palavra, sobre esses assuntos não práticos. São todos só braços e pernas. Quando muito, almas. Mas agora, com você aqui eu posso viajar um pouco.

Eliane deu uma risada leve e se apercebeu daquelas palavras de Lia: “agora, com você aqui…”, “o que será que ela quis dizer com isto? Bom, depois eu falo com Ana Clara e compreendo melhor o que é isso aqui”. Enquanto Eliane pensava, iniciava-se uma conversa entre todos. Gabriel que a começara perguntando sobre a chuva:

– Será que essa agora vinga muito?

– Se vingá demais vamo perdê um bocado de semente… – dizia um branco alto que parecia ser o mais velho de todos – mas por enquanto acho que não, podemo arrumá o barramento antes que as água cresça.

– É, tem razão Seu Nestor, é melhor a gente começar é hoje mesmo a arrumar aquele estrago que aconteceu. Quem aqui topa? – Perguntava Armando. Todos responderam quase em uníssimo que sim. Eliane continuava quieta sem falar nada. O baixinho que falara da nave olhou-a e perguntou então:

– E a moça nova? É muda ou tá envergonhada? Olha, não precisa ficar polida com a gente não viu? Ninguém nos apresentou, mas então eu mesmo faço o serviço: meu nome é João Vicente de Souza. E qual é sua graça?

– Eliane – falou ela rindo um pouco –, Eliane Pereira de Souza.

– Bom Eliane, somos parentes então… Bem-vinda à nossa comunidade. Me disseram que ontem você tava faladeira que só. Tomara que mais tarde se abra mais e resolva imitar um sapo que nem me contaram – e soltou uma bela risada.

Acordando

19/11/2010

Eram duas da tarde quando Eliane acordou. Viu que chovia torrentes, o que identificava que dezembro ainda não acabara. Seus olhos não acompanhavam a sincronia do corpo que se prostrava de pé e se limitavam a continuar uma união perpétua de pálpebras. Eliane levantava maquinalmente, sabendo que se não o fizesse ficaria na cama até o outro dia. Quando finalmente ergueu-se por completa surgiram as sequelas de sua noite: o quarto girava mais que a Terra, as pernas tremiam mais do que o usual, a boca amargava uma essência que remetia a suas infâncias de gripe – andiroba – e a cabeça parecia latejar as pulsações de uma escola de samba.

Lentamente Eliane caminhava em direção a seu banheiro. Estava confusa, olhou para o local onde o banheiro deveria estar e viu uma parede. “O que?”, pensava Eliane. Olhou à direita e contemplou o banheiro. “O que diabos eu tomei ontem”, pensava Eliane.

Entrou no banheiro sentou-se ao vaso e deu uma cagada que há tempos não dava, uma cagada nota nove e meio numa escala de zero à dez. Lavou o rosto e começou a pensar quando teria feito tantas mudanças no banheiro: um bidê, um pôster do Cartola, revistas em quadrinhos ao lado do vaso, sabão com essência de cravo na pia, incenso de alecrim aceso e um saci-pererê pendurado no centro do banheiro. Assustou-se. Definitivamente não estava em sua casa. Onde estaria então? Tinha medo de sair do banheiro e descobrir onde estaria, na casa de algum tarado? Na certa não, uma vez que não estava amarrada e, com toda certeza, um tarado não iria possuir um saci pendurado no banheiro. “Será que não?”, ponderou melhor. Tentou lembrar-se de alguma amiga em que confiasse para dormir. A Alice não seria, pois saci não era seu tipo, haveria ali um gnomo ou uma fada; a Ana Clara também não, uma vez que a casa não tinha paredes cinzas. “Onde estou afinal”, indagava-se Eliane a todo instante.

“Será a casa de algum cara?”, ela não queria nem pensar na hipótese. Seu último relacionamento havia sido algo tão intensamente complexo que a última coisa que ela queria era ter dormido à noite com alguém. “É isso que dá sair pra afogar as mágoas!”, irritava-se consigo.

Começou então a perpetuar-se pelo banheiro um cheiro de canela e banana. “Ai que fome”. Um delicioso cheiro de canela e banana. Eliane não se segurava, tinha que sair e ver em que casa estava. Tentou recordar-se da noite passada, mas a dor de cabeça e o cansaço não a deixavam recordar-se ao certo. “Bom, fui à casa da Ana Clara, depois fomos até uma chácara longe pra caramba, nessa hora eu já tinha bebido umas nove latinhas, mas e depois?”. Eliane começou a observar que o saci parecia que estava vivo, parecia que se mexia “Minha Nossa, que viagem. Será que eu tomei algo estranho?”. E uma imagem, mais miragem que imagem, apossou-se dela: uma roda, todos pelados, uma fogueira e dança frenética, lua cheia, músicas tribais. “Será que foi verdade?”.

De repente uma voz forte, bem trabalhada, do tipo dessas cantoras de rádio começou a se ouvir:

– Rainha dos raios, Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim!

Maria Bethânia. Quem cantaria qual Maria Bethânia? Bem, pelo menos já sabia que na casa havia uma mulher. Quem seria ela, não fazia a mínima idéia. Criou coragem, tinha que sair, tinha que ver onde estava. Abriu a porta sem fazer barulho, espreitou o corredor e viu por uma janela que estava num lugar cheio de árvores. “Será que ainda estou naquela chácara?”. Seguiu o cheiro da banana com canela. Entrou na cozinha: ninguém. Lá havia uma mesa grande com muita fruta, arroz, feijão, frango com pequi e as tão sentidas bananas com canela. Não tinha fogão, não havia geladeira, só a grande mesa, algumas cadeiras, uma pia e um filtro de barro. Foi até o filtro e bebeu muito, há anos não bebia uma água tão gostosa, sabor de infância, sabor de tempo distante, gosto de meninice, cheiro de água. “Nossa, quanta recordação cabe no gole de uma boa água”.

Sentou-se à mesa e a admirou com água na boca. Melancia, jaca, mexerica, arroz e feijão, frango com pequi… quando teria sido a última vez que degustara uma iguaria daquelas? E aquelas bananas com canela…

– Bom dia! Disse uma negra alta, segurando uma bacia com mamão e goiaba.

– Bom dia. Eliane respondeu um tanto confusa, afinal, quem seria aquela mulher? Eliane nunca havia visto ninguém sequer parecida com ela. Uma negra linda. Dreadlocks nos cabelos, várias pulseiras nos braços, adereços indígenas no pescoço e roupas multicoloridas. Eliane demorou a perceber, mas aquela mulher poderia ser talvez a mulher mais linda que ela já havia visto na vida.

– Você está bem Eliane? Perguntou a mulher com um tom de ironia.

– Estou só com dor de cabeça, um pouco tonta. Retrucou rapidamente. “Como é que ela sabe meu nome?”, pensava ela.

– Você não deve se lembrar de mim, não é?

– Desculpe, mas realmente não me recordo…

– Meu nome é Lia.

– Prazer, o meu é… bem, você já sabe o meu. Mas como?

– Não te lembras de ontem à noite?

– Tenho alguns insites, mas com certeza tem muito de psicotrópico.

– Ah, isso sim, você exagerou…

Lia arrumou os mamões e as goiabas junto às outras frutas e pediu licença, saiu para o que parecia ser um grande quintal cheio de árvores. Eliane aproveitou para reparar na cozinha, tinha um quadro grande de Salvador Dali, aquele em que os relógios derretem, viu também que havia duas carrancas na porta da cozinha, e um apanhador de sonhos pendurado na porta, abaixo da ferradura. Chovia muito e a cozinha estava escura, pensou em acender a luz, mas viu que não existia interruptor na cozinha e que não havia lâmpadas no teto, nem bocal para colocá-las. “Que estranho!”, pensava Eliane degustando uma mexerica.

Lia voltou com um grande jarro de suco, parecia qualquer coisa um tanto esbranquiçada, sentiu o cheiro:

– Cupu? É cupuaçu?! – perguntou emocionada Eliane.

– Sim, lembrei que você falou que sua família era do Norte… resolvi fazer uma gentileza à visita.

– Não quero parecer mal-educada, mas posso comer?

– À vontade, a comida está aí para isto mesmo, depois da noitada de ontem!

Eliane voou em cima da comida como se não comesse há anos. Lia falou:

– Ontem foi engraçado.

– A festa foi aqui? Não me lembro muito bem.

– Foi. Fazia tempo que não havia uma noite tão agradável. Música, dança, flertes… Você tem bom gosto, sua amiga Ana Clara é uma pessoa de muita luz, só lhe falta acendê-la.

– Ana Clara? Cadê ela?

– Está com o Gabriel.

– Ai, que bom, não que eu esteja desconfortável, mas é melhor saber que estou com alguém conhecido, fico menos envergonhada.

– A vergonha é só um sentimento exacerbado de autopreservação social, não vale a pena senti-lo, o melhor é fazer o que você sentir vontade sem se preocupar com o que os outros vão pensar.

– Mas às vezes é difícil.

– Eu sei, faz parte da atual existência humana. O ser humano só sobrevive com a opinião dos outros, uma relação estranha de semi-individualidade.

– É… – balbuciou Eliane num tom que demonstrava claramente que não havia se apercebido completamente do que dizia Lia.

– Não vou ficar aqui filosofando sobre o éter, como me cutuca tanto Gabriel, vou deixá-la comer em paz, depois você aparece lá em baixo no campo, o pessoal está jogando bola.

– Tudo bem… – “Jogar bola? Quem jogaria bola num tempo daqueles?”, pensava Eliane achando um pouco de graça daquela situação.

Depois de muito comer, relaxou um pouco, teve vontade de fumar. Por pouco estragou suas quatro semanas sem cigarro. Levantou-se e foi até o que seria o quintal, deparou-se com uma vasta área verde, aparentemente ela se perderia em meio àquele mar de verde. Lembrou-se do sítio de seus pais enquanto criança, não havia tanto verde é claro, mas em sua mente brotavam-lhe notas memoriais de quando corria descalça e olhava para a maioria das pessoas esticando o pescoço para o alto. Não teve muita saudade.

“Quem deve gostar de seus amigos é primeiro eu e depois você!”

“Você está assim é por que eu não te dei umas bofetadas!”

“VOCÊ É UMA FRACA!!!”

Essas marcas do passado fizeram-se ouvir em seu peito, como se seu coração fosse um ouvido e a imagem de seus pais fosse uma faca a gritar um corte profundo. Com vinte e dois anos Eliane meteu o pé no mundo. No dia em que completou vinte e dois anos resolveu ressuscitar: raspou sua vasta cabeleira, largou o emprego em meio a uma pequena festinha de aniversário que se promovia para ela, sacou todas as economias que tinha adquirido quando de seus milão-mais-tíquete-e-vale-transporte, entrou em casa, colocou metade de suas roupas em uma sacola, chegou na sala e, ao ver seu pai dormindo no sofá com a televisão ligada, cuspiu-lhe a cara — uma cusparada quase tuberculosa, verde, grossa, pegajosa —, o pai só passou a mão e virou-se de lado. Ela saiu batendo a porta e deixando todo o seu carma pesado para trás. Renasceu, como sempre dizia desde então.

Nunca mais vira seus pais, alguém uma vez disse que estavam passando certa dificuldade, haviam até vendido a casa. Não quis ir lá para conferir, sabia que havia nascido sozinha com suas próprias mãos, fruto de uma gestação difícil, e de um parto tenso. E tudo aquilo havia sido antes de 2012.

Dividiu por um tempo um apartamento com suas duas únicas amigas que haviam restado: Alice e Ana Clara. Depois de um certo tempo cada uma quis um rumo doméstico próprio e arrumaram um canto cada qual. Eliane casou-se com Marcos e viveram juntos por três anos. Depois reatara um relacionamento confuso com Paulo, seu eterno namorado, e dividiu um apartamento por dois anos com ele. Sujeito maluco, professor de história meio louco, escritor de vez em quando (“e poeta de quando em vez”, como ele mesmo gostava de pronunciar). O relacionamento acabara depois do caos instaurado pós 2012.

Vários anos se passaram, o relacionamento foi-se com as rotações da Terra e Eliane ficou então só novamente. Atualmente morava sozinha, ou melhor, ela e a Gertrudes, uma lagartixa muito grande com a qual havia se afeiçoado. Moravam em um apartamento (quase uma quitinete) num bairro da periferia, que ficava a cerca de vinte minutos de seu trabalho. Vivia, ou sobre a vida vivia, de forma simples.

Eliane escutou gritos de pessoas subindo. Cantavam uma música do Caetano, que há tempos não se cantava: “Que deus segue esse menino, que deuses o seguirão…”. Olhou ao redor e respirou fundo. As pessoas se aproximavam, havia várias e com toda certeza, esteticamente não constituíam um grupo coeso. Reconheceu pelo menos cinco pessoas e não viu lógica em tais estarem juntas.

Eliane viu Armando, um rolo antigo que ela havia tido, conversando com Ana Clara. Não entendeu muito, uma vez que eles nunca haviam se batido. Perto deles estava Moisés, um artista plástico conhecido de seus amigos, mas que sempre fora um tanto longe, desses artistas melancólicos que sempre querem ser misteriosos, e ela não conseguia imaginá-lo jogando bola. Junto deles estava Bianca, uma garota meio nada a ver, dessas que nem fedem e nem cheiram. Moleca nova de uns vinte e poucos anos no máximo e que já havia lido demais para a idade. Ela se encontrava de mãos dadas com Silas Madureira, um bioeconomista doidão que falava coisas estranhas, mas que de vez em quando pareciam surtir algum efeito estranho sobre ela.

A pessoa que mais estranhou foi Sabrina. Ela era irmã de um ex-namorado da Ana Clara, o Heitor, que havia se suicidado havia uns dois anos. Essa Sabrina era uma patricinha inveterada que odiava toda movimentação da galera “alternativa” antes de 2012 e que, depois, havia entrado de cabeça numa das oitocentas seitas místico mágicas que haviam se iniciado.

Junto a eles, haviam mais algumas pessoas, as quais desconhecia, ou se conhecia, não se recordava. Mas mesmo assim, não ligou muito para a bizarra galera que se agrupava, pensou o que sempre pensava nessas horas: “cada um, cada um…”.

Damião olhava Eunice Jaci enquanto ela terminava de comentar o post do bioeconomista Silas Madureira sobre os impactos que a usina de biomassa iria promover sobre os Assentamentos Rurais Indígenas do Rio das Almas.

– Os caras tem que ter energia, mas concordo com o Silas, centralizar a produção não é a solução para eles.

Damião olhava Eunice comprazido de que era ela a mulher para sua vida. Tudo bem que o mundo estivesse ali assim, colocado para todos. Tudo bem que o mundo já estava resolvido com suas frustrações e toda forma de amor era possível, permissível e recomendável. Tudo bem, Damião desejava só Eunice Jaci.

– Tá tudo certo Dami?

Damião reparava na cor dourada de Eunice, brilhando ainda mais sob a luz da manhã que vinha forte.

– Tá.

– Você tá com uma cara engraçada.

– To?

– Tá.

Damião riu leve, olhou os olhos puxados de Eunice e viu uma força imensa e calma. Era quase uma tranquilidade iansãnica.

– Tenho que ir lá na comunidade quilombola dos Ndum ainda hoje. Você lembrou, né?

– Claro. Falei com a Marta pra deixar o possante no jeito.

– Tenho que aprender a dirigir essas coisas logo, né?

– Seria bom.

Damião lembrava de como podia aquela índia macuxi se interessar tanto por aparelhos eletrônicos e ao mesmo tempo não ter a mínima vontade de compreender um pouco sobre máquinas. É tudo transformação de energia, pensava Damião.

– Tomara que eu consiga resolver o problema da rede wi-fi deles. Essa semana eles devem estar terminando a feitia das cachaças, faz tempo que quero tomar uma de arnica.

– É, e tem festa de Oxossi daqui uma lua…

– Não se preocupe, a Eliane está lá nos Ndum e disse que provavelmente o problema é tranquilo. Pelo que ela disse, acho que deve ser algo com o hotspot deles. Grila não que vai ter cachaça pra todo mundo.

– Caracas, agora que lembrei, você não vai estar aqui para a reunião com o Coletivo Urbano sobre essa história da usina de biomassa, né?

– Acho que termino lá nos Ndum em uns três dias.

– Vai tomar um banho de cachoeira…

– Claro meu Tinga, ninguém é de ferro… Mas, por que? Tá preocupado com os maloqueiros?

– Sei lá, é tipo um pressentimento, é que, se der alguma merda, faz tempo que a gente não faz treinamento de ataque…

– Vai dar tudo certo, não esquenta. O Paulo vai estar com você?

– Vai.

– Ele tá por dentro de tudo e se dá bem com os maloqueiros, não esquenta.

Damião se espreguiçou forte e olhou mais uma vez Eunice. Beijou-lhe ávido a boca. Eunice levantou-se, desatou a rede e a enrolou junto a um gancho. Desligou o computador e saiu porta a fora. Damião ainda ficou um tempo olhando Eunice pela janela enquanto ela caminhava até a casa de Marta. Um requebrado gostoso, cadenciado. Tudo ali nela tinha gosto, Damião suspirava.

Eunice chegou à casa de Marta e viu que ela limpava alguma coisa no motor da bandeirante.

– Tá tudo certo flor? Perguntou Eunice dando um beijo na testa de Marta.

– Tá sim. Só to dando uma garantida aqui nessas velas.

– Claro. Que horas que a gente sai?

– Queria sair daqui depois do almoço. Não to afim de pegar estrada durante a noite. Se a gente sai daqui por volta de uma hora, creio que estaremos lá no comecinho da noite.

– Bom. Então eu vou arrumar as coisas logo pra não atrasar.

– Por favor. Não vai enrolar muito.

– Claro, não esquenta.

– Ah, você viu o Paulo?

– Não. Acabei de sair de casa.

– Aquele Zé Mané falou que tinha conseguido uns camarões com uns mineiros e até agora nada. Até arranjei leite de coco.

– Ih, você ainda vai fazer almoço?

– Não, eu queria era que ele fizesse… To enrolada, acordei muito tarde porque fiquei a noite toda filtrando aquele óleo de cozinha todo que encontramos naquele restaurante abandonado.

– Podia ter pedido ajuda.

– Se liga mulher, eu dou conta.

– Ok, ok, não está mais aqui quem falou, vou me adiantar, então…

– Por favor…

Eunice voltou para a casa e viu quando Paulo saiu dizendo a Damião:

– Lembra, lê isso bem lido cara, a coisa é séria.

– O que está tenso? Perguntou Eunice para Paulo de forma seca.

– Bom dia pra você também Jaci.

– Bom dia. Foi mal, é que não gostei da frase.

– Calma, disse Damião, é sobre a festa de Oxossi.

– Sei, sei. Só não vou ficar perguntando demais porque tenho muita coisa pra fazer. E irrompeu porta adentro.

– Isso mesmo Jaci, não esquente, é sobre a festa – interviu Paulo. E vê se arruma muita cachaça, beleza?

– Alguma vez já falhei contigo? Retrucou Eunice já no quarto. Ah, sua mulher tá te procurando, vai lá fazer comida pra ela que a gente sai logo mais.

– Então Paulo, será que rola de engrossar esse feijão? Perguntou Damião. É que eu preciso ir até Xavantina dos Pirineus pegar as assinaturas pra convocação da reunião no Descoberto.

– Tudo bem. Só me fodo mesmo.

– Qualé? Favor prum irmão poxa…

– Claro que eu faço bandido. Ainda mais que eu sei bem que assinaturas são essas…

– Não cara, são assinaturas mesmo.

– E a Marinã?

– Acordei hoje mais apaixonado do que nunca pela Eunice.

– Então quer dizer que a porta está aberta lá pelas bandas de Xavantina?

– Calma um pouco amigão, depois a gente conversa melhor. A sua nega dos braços fortes tá bem ali te olhando… Acho melhor fazer logo esse rango enquanto ela não te arrasta pelas orelhas…

– Não preciso me preocupar com isso, ela nunca me arrastaria pelas orelhas, ela as acha lindas. Seria mais fácil ela me colocar nos ombros que nem lenha ou puxar pelos cabelos. Mas vou lá antes que eu me foda mais ainda. E, quem sabe, não rola uma pequena foda antes da partida? Adoro quando ela está suja de graxa.

– Vai lá então, seu galo…

– Eu que sou galo, né, seu pavão…

Contexto pra contar

19/11/2010

Tudo se dera após os sucessivos golpes de Estado que haviam ocorrido depois de 2012, quando grupos descontentes com o mundo, de uma forma geral e irrestrita, resolveram aproveitar a hecatombe ambiental que se abatera na Terra, após a inversão dos pólos terrestres e o início do degelo das calotas polares numa média de subida do nível dos oceanos em setecentos e cinqüenta metros por semana. Fora todas as tsunamis que ocorreram em todas as costas continentais e em um só mês fizeram com que Portugal, Espanha, Itália e Grã-Bretanha virassem Atlântida. O recuo do litoral rumo ao interior fazia o oceano chegar a rincões nunca antes imaginados.

Nesta época todos os Estados nacionais constituídos haviam sido esfacelados em unidades de micro-poder locais, sendo substituídas tão logo possível, por nano unidades de poder corporais, ou falando de outra forma, o famoso “cada um por si”. Comunidades dos mais diversos tipos surgiam a cada hora, baseadas nos mais disparatados preceitos: Socialistas Evangélicos da Salvação na Hora Certa, Alistamento de Colaboradores com o Caos Universal, Igreja Universal do Reino do Senhor, Eu Quero é Aliens, Budistas Espíritas Anarquistas, Ordem do Doce Eterno em Nossas Mentes, dentre outras mais.

A situação beirava um caos nunca dantes visto na face da Terra e se chegava a pensar que era o fim do mundo, ou pelo menos, o fim da raça humana, como pregavam os Adoradoras e Adoradores do Fim da Cultura, grupo coordenado por um certo William, sujeito que vira nesse espetáculo de catástrofes a chance de cooptar pessoas em prol do seu projeto de desumanização da Terra.

Durante dez anos tudo parecia definitivo, já se contavam pelo menos quinhentas e vinte e cinco novas vindas de cristo e, dentre os judeus, pelo menos cento e setenta e oito salvadores e, dos amigos desses, surgiram mais de trinta e nove Novos Torás, sendo o último distribuído por toda a internet como A Novíssima e Definitiva Palavra do Verdadeiro e Único Filho Legítimo de Deus, uma vez que A Definitiva Palavra do Verdadeiro e Único Filho Legítimo de Deus e A Palavra do Verdadeiro e Único Filho Legítimo de Deus já haviam sido colocadas para escanteio por alguma verdade ainda não dita e mais adequada aos tempos de caos.

Neste período que fora chamado de Caoticidade e não de Pós-Modernidade, como tanto queriam pessoas como William e as Adoradoras e Adoradores do Fim da Cultura, o mundo fora reduzido ao extremo, em dez anos pelo menos o litoral de todos os continentes fora engolido por cerca dois mil quilômetros de mar e quase todas as ilhas oceânicas haviam submergido. Alguns países, como os Estados Unidos viram com muito gosto tal fato, uma vez que, por exemplo, Cuba havia ficado completamente em baixo d’água num piscar de olhos e o Japão já não trazia mais ameaças concorrenciais para ninguém a não ser aos monstros subaquáticos.

No Brasil tudo ia relativamente bem, era fácil se acostumar com a catástrofe e depois que o litoral havia sido todo engolido, as coisas pareciam mais amenas. Não havia mais as grandes máquinas de produção do capitalismo, como São Paulo e Rio de Janeiro, o sul havia sido tragado em cerca de oitenta por cento pelas águas e os mineiros finalmente podiam ver o mar batendo em sua porta. O quase triângulo formado por Brasília, Goiânia e Belo Horizonte era o grande centro indutor da urbanização ainda existente.

Nos arredores desse triângulo, diversas associações de pessoas começaram também a se organizar em movimentos de reocupação dos espaços rurais. Levas de pessoas migraram das cidades para o campo e instauraram novas comunidades de produção de alimentos e outros gêneros de vida. Preocupavam-se com a Terra, reflorestavam campos, implodiam barragens, reavivavam tradições, começavam manifestações.

Reuniam-se em antigos quilombos, comunidades indígenas, aldeamentos, vilarejos e produziam para trocas locais e regionais. Mantinham trocas esporádicas com alguns grupos que tinham escolhido permanecerem nas cidades, embora numa relação ainda tensa, devido à dependência que os citadinos tinham dos alimentos produzidos no campo. Por volta de 2015, tal dependência causara uma guerra, logo quando se abateu a primeira escassez de alimentos nos conglomerados urbanos.

Eles detinham as armas, mas não sabiam plantar. Tentaram escravizar os campesinos, mas sabiam que tal sistema não teria como dar certo por muito tempo. A história ensinava. Selaram um acordo de paz e desde então, diversas contendas entre grupos que coabitavam a região do Planalto Central brasileiro eram resolvidas num grande debate, às margens da barragem do Descoberto.

Por volta do ano 2029, o Coletivo Urbano, grupo que se localizava onde antes fora o Distrito Federal, precisava resolver uma questão energética seríssima e optaram pela produção de uma usina de bioenergia gigantesca. Iriam implantá-la próximo à cidade de Pirenópolis, que tinha sido recolonizada por um grupo de índios xavante e mais um grupo de estudantes de antropologia da não mais existente Universidade Federal de Goiás. Deram-lhe um novo nome: Xavantina dos Pirineus.

O Coletivo Urbano era formado por jovens remanescentes da esfacelada periferia brasiliense e juntos, somavam algo em torno de seiscentas mil pessoas. Dividiam-se em clãs de maloqueiros localizados em cidades diferentes e possuíam um poder centralizado e hierarquizado. No ápice da pirâmide se encontrava Dod, um antigo cantor de rap extremamente incisivo e carismático, que havia conseguido conciliar todos os grupos de pilhagem que haviam se formado logo após a guerra de 2015.

No sentido norte e oeste do antigo quadradinho do Goiás, entre as Chapadas dos Pirineus e dos Veadeiros encontravam-se vários novos campesinos. Diversos grupos haviam reocupado aquela região e fundado algumas comunidades. Existia a Comunidade Quilombola Ndum, localizada dentro da Chapada dos Veadeiros, a Comunhão Sustentável do Planalto, que se sitiara nos arredores de Formosa, e os Assentamentos Rurais Indígenas, que se agrupavam ao longo de diversos rios: das Almas, Preto, Descoberto, São Bartolomeu e Paranoá. Alguns desses assentamentos mantinham uma etnia indígena particular, enquanto outros eram formados pela junção de diversos grupos diferentes. Era o caso dos Assentamentos Rurais Indígenas do Rio das Almas, os Ariras.

Os Ariras haviam sido constituídos inicialmente por alguns índios carajá, que haviam ocupado porções de terra na região de Jaraguá. Além dos carajá, viviam lá xavantes, bororos, índios “sem-bandeira” – como se autodenominavam os índios que vagavam de tribo em tribo – e não-índios. Produziam diversos gêneros alimentícios e realizavam trocas constantes com todos os grupos que habitavam o antigo centro do que fora uma vez o Brasil.

Marta esperava tranquilamente por Caio sentada junto ao balcão. Conversava com Tuco enquanto reparava na foto do Tim Maia que ficava emoldurada junto ao banheiro. Na foto, Tim olhava o bar meio de longe, meio de perto, parecendo que queria sacar o clima do boteco. Pensou longe que a sucessão dos tempos é uma coisa absurda. Esse mesmo bar, àquela época, as pessoas andando com precatas e meias, capangas dependuradas. Olhou ao redor, vários tinham capanga e precatas ainda. O tempo passa, mas a humanidade fica, pensou. E o espaço é só uma aglutinação de marcas humanas sujeitas a uma retroalimentação constante, completou.

Caio estava deveras atrasado. Marta já olhava com um ar de pouquíssimos amigos. De tanto cansaço resolveu pedir uma cerveja. Bebia tentando controlar a impaciência, o nervosismo e um pouco da preguiça. Esse cara nem é tanto assim, mas sei lá, parece ser razoável e tem uma barba boa, meditava enquanto dava uma ou outra olhada para o celular em cima do balcão procurando observar quantas horas seriam. Não tinha cara de quem faria a barba constantemente, Marta avaliava Caio mentalmente enquanto acendia um cigarro, buscando uma forma de estabelecer se tinha feito a escolha certa ao convidá-lo para o encontro.

Ainda fui eu a tomar a iniciativa. Que pelo menos tivesse sido ele. O mané deve estar se achando. Eram frases que pululavam à cabeça de Marta de quando em quando.

No meio do segundo cigarro, Caio chegou:

– Oi princesa, desculpe o atraso, falou Caio beijando o rosto de Marta.

– Tudo bem, nem estou aqui a tanto tempo. Mentiu Marta agora mais aliviada, mas um tanto ainda nervosa e com preguiça daquilo tudo. To aqui nessa, eu que me enfiei e ainda fico impaciente com a situação? Pensou enquanto pediu um outro copo para o Tuco. E o cara nem pede o seu próprio copo? Arrematou mentalmente.

Toda vez que Marta ficava nervosa sentia os nervos de suas mãos ficarem tensos e relaxados ao mesmo tempo. Era uma sensação estranha que lembrava um tremor, mas também parecia uma quentura, o problema era que começava a suar.

– Então, nem esquenta não que eu acho que vou tomar uma coca, disse Caio acendendo um cigarro.

– Você não bebe? Perguntou Marta.

– To dando um tempo. Tava bebendo demais, aí sabe como é, é melhor uma pausa e coisa e tal…

– Claro, claro. Mas você não se importa se eu continuar bebendo?

– Numa boa – Caio falou rindo um pouco – to dando uma pausa, mas não sou alcoólatra não. Não to em nenhum AA ou coisa parecida, se tivesse teria saído com você pra um restaurante, cinema e não para um bar…

– Claro, claro, repetiu Marta em conflito mental se o “oi princesa” inicial seria o mote da conversa ou se o papo ia se conduzir mais pra leveza do “não sou alcoólatra” final. Ela ainda estava com preguiça.

A conversa fluía razoavelmente, o cara no final era boa prosa mesmo, a cerveja descia fácil, o cigarro entrava e saia macio, as ideias se entrosavam. A barba dele era realmente boa, pensava Marta, já se sentindo sem preguiça alguma.

No meio da segunda cerveja, Caio resolveu tomar “só um uísque pra dar uma descolada na garganta”. Nesse mesmo momento vários conhecidos de Caio apareceram, o cara conhecia o bar inteiro na verdade, praticamente todo mundo. Não que aquilo fosse realmente incômodo para Marta, dava até um charme razoável ao sujeito, meio Don Juan, um certo arzinho vagabundo. Sempre aquela coisa das mulheres se encantarem por um anjo decaído, ela relativizava enquanto prestava atenção à conversa de Caio com o dono do bar.

A noite avançava, no amanhã ainda existia uma sexta-feira antes da redenção e o “só um uísque pra dar uma descolada na garganta” já tinha se transformado em cinco. A língua de Caio ficara num tal de grau de moleza que ela desacreditava um tanto, mas ainda assim um certo desejo pelo cara mantinha-se num alto grau de constância.

Ainda era cedo da noite, e o cara bebia bem, quando Marta reparou nas horas percebeu que se ela quisesse algo àquela noite com o maluco era melhor ela se arranjar logo, senão ela corria o sério risco de ficar sobrando na mesa, enquanto Caio trocava ideia com cada ser humano que adentrasse ao bar.

– Mas e então, esse bar tá ficando meio chato, não? Perguntou Marta com um olhar altamente desafiador para Caio e com as mãos pingando de suor.

– É, a gente pode ir pra algum outro lugar melhor mesmo… Concordou Caio.

– Tem um hotel meio vagabundo mas sem manchas estranhas nos lençóis ou nas paredes aqui perto…

– Nossa, esse convite eu aceito com toda a certeza, Caio disse com a língua parecendo o silvo de uma cascavel.

Pagaram as contas e foram ao hotel. O ambiente era bem decadente, ficava em cima de uma loja de tênis e a escada que dava acesso à recepção, que se constituía apenas de uma singela mesa, tinha uma luz parca que falhava. Quando chegaram à recepção o cara que cuidava dos quartos quase soltou um “Caio, a quanto tempo…”, mas se controlou assim que viu a cara de poucos amigos de Marta.

Entraram no quarto com um abrasador senso deslocalizado de não reparar em nada. O cara tem uma pegada boa pelo menos, Marta internalizava o processo querendo vencer o nervosismo ou a impaciência, afinal, preguiça naquele momento não havia. Rapidamente estavam nus, ela por cima dele. Corpos arfavam num quarto vagabundo e desejavam um ao outro.

Puts, tava precisando mesmo disso hoje, Marta se agraciava enquanto percorria lentamente o corpo de Caio.

– Esse hotel só podia ter um isolamento acústico melhor, não preciso de forma alguma ficar escutando essa professora de orgasmos aí do lado, disse Marta esperando uma risada ou um “não esquenta com isso e presta atenção aqui”, vindo forte e bruto de Caio enquanto lhe agarrava. O estranho foi que nada aconteceu, o cara nem ao menos deu um sorrisinho. Ciente do que poderia ter acontecido, Marta olhou para o rosto do sujeito e viu a merda que acontecera: Caio estava dormindo.

– Puta que pariu, que merda, sentenciou Marta.

Marta ainda tentou em vão dar uma sacudida no cara, mas Caio apenas começava um ronco baixinho, meio tímido ainda. Com certeza aquilo viraria uma motosserra a qualquer hora, pensou.

Com a calma que Deus lhe deu, foi até o banheiro e tomou uma ducha enquanto resolveu algumas questões que haviam ficado em fulgor em seu corpo. Saiu do banho, fumou o último cigarro do maço de Caio olhando pela fresta do outdoor que tampava a visão da janela e maldizendo seu processo de escolhas, vestiu-se e saiu. Caminhou um bom tanto à esmo procurando internamente o seu processo bruto de novo. Sem autopiedade Marta, dizia de si para si.

Entrou no primeiro boteco que encontrou. Só tinha uma mesa com dois casais e um sujeito barbudo com um simpático ar de melancolia de fim de noite sentando junto ao bacão assistindo de rabo de olho o programa do Jô que começava. O sujeito passava freneticamente a mão na barba. O cara parece que tem piolho nessa barba, pensou Marta enquanto ficava de pé junto do balcão. Pediu uma cerveja. O cara que estava ao lado olhou para ela e disse:

– Sabe quando o que resta de uma noite é a sensação de que ela se resumiu a umas três míseras coisas?

– Quais seriam? Perguntou Marta fazendo com um sinal se poderia pegar um dos cigarros do maço que estava no balcão.

– Impaciência, nervosismo e duas doses de preguiça, disse o cara puxando um cigarro e entregando-o para Marta.

– Por que isso me parece tão familiar? Perguntou Marta enquanto acendia o cigarro e com um sorriso altamente controlado no canto da boca.

– Você poderia me explicar a sensação, que eu avalio se é algo próximo ou não, senhorita… Deixou no ar o cara, esperando que Marta completasse e passando os dedos no bigode.

– Marta.

– Muito prazer Marta, impaciente Paulo ao seu dispor, retrucou o cara enquanto servia Marta.

– Impaciente?

– Bom, desde já muito mais nervoso e com um pouquinho de preguiça, do que impaciente…

– Bom, Paulo, deixa só eu molhar o bico que eu te conto então, disse enquanto soltava um leve bocejo e sentia os nervos das mãos se contraírem e relaxarem ao mesmo tempo.

A tarde vinha tensa, a linha do horizonte iria se arrebentar a qualquer momento e dar vez à liquefeita noite anunciada pelo espetáculo milagroso dos raios de sol amarelando as frestas das nuvens carregadas.

– Essa hora é meio milagrosa. Disse Amanda deitada no colo de Fátima.

– Milagrosa? Perguntou Fátima enquanto acariciava os lisos e loiros cabelos de Amanda.

– É, parece que das nuvens, no meio dessas luzes que atravessam elas, vai surgir um camarada de barba branca, cabelo grisalho e dizer alguma coisa reveladora…

– Tipo “Amanda, essa vida de devassidão irá matá-la”! Ironizou Fátima em tom coquete.

– É tipo assim mesmo. Quando criança eu tinha um tanto de medo disso. Às vezes pensava que poderia vir Maria, e me convocar para alguma missão. Tinha um medo danado de acontecer um milagre comigo e ter que virar santa ou algo assim…

– Você é engraçada, sabia?

– Já me disseram que eu poderia trabalhar no circo uma vez…

– De quê?

– De macaca…

– Sério?! Perguntou Fátima rindo um tanto.

– O pior é que é sério… Disse Amanda afundando o rosto no colo de Fátima.

A tarde ainda tinha alguns breves momentos antes de ser coberta por um negro lençol. Ao redor das duas só um ermo parque, algumas árvores tortuosamente cerradinas, o ar enfim úmido de final de ano e cigarras frenéticas prontas a amar até a morte.

– Você tem alguma fé? Perguntou Fátima.

– Fé? Acho que tenho. Sei lá. Faz tempo que não penso nisso, ou sinto, vai saber qual é a dimensão da fé. E você?

– Eu? Bem, eu acredito nas pedras, sou uma petrocentrista, mineriocentrista…

– Sério? Então você é uma dessas que curtem cristais e tal?

– Não! Cristais não! As pedras é que têm razão.

– Essa é boa, você é do culto à Gaia então?

– Pode ser, sou defensora do gaialismo, mas não de Gaia a deusa-mãe, mas de gaia, do verbo gaiar… Tipo o que estou fazendo agora, gaiando o Gil…

– É flor, não esquenta que se você continuar pensando assim, vai acabar despertando o seu espírito cristão de culpa.

– Pode crer, então me beija que pra eu não ficar pensando mais nisso…

Ficaram as duas ali se beijando, enquanto a noite pousava em suas têmporas. Alguns mosquitinhos perturbavam, vários bichos começavam a conversar. Um leve frio acompanhava. Fátima já estava com as costas doloridas e Amanda um tanto desconjuntada, afinal, passaram a tarde toda ali. Fátima estava apertada e foi ao mato se aliviar, enquanto Amanda ficou dobrando a canga e colhendo algum lixo que elas tinham juntado. O horizonte era calmo e Amanda viu a primeira estrela no céu aparecer.

Fátima demorava e Amanda começava a ficar impaciente. Olhou para o mato e não viu nenhum sinal da companheira. Chamou-a três vezes e nada. Pensou que Fátima poderia estar fazendo uma brincadeira e resolveu ir atrás dela. Adentrou à mesma trilha que Fátima havia ido. Enquanto caminhava, chamava por Fátima. Nada de resposta. Como começava a se afastar muito da pracinha do parque e a noite ficava mais forte, resolveu voltar. Ligou para Fátima, mas percebeu que sua bolsa estava ali junto à dela. Começou a se preocupar. Sentou-se um pouco olhou para o horizonte, as últimas luzes do sol ainda se infiltravam pelas nuvens. Do meio de uma delas algo parecia se mover, ficou reparando na coisa um tempo até que desapareceu.

Amanda realmente não sabia o que fazer, se saia logo do parque, se ia atrás de Fátima. Começou então a gritar compulsivamente pela colega, mas nenhuma voz retornava.

Perto da trilha em que Fátima havia entrado para mijar, Amanda viu uma luz vindo em direção a ela. Pensou que agora estava perdida, o milagre tantas vezes temido iria acontecer àquele momento. Meditou alguns segundos e entendeu que o momento era único, como tinha levado a máquina fotográfica para guardar algumas imagens de seu encontro com Fátima, resolveu tirar uma foto da luz. Assim que seu flash disparou uma voz em tom de falsete a alertou:

– Desligue essa luz!

Amanda se mijou toda quando escutou a voz. Não conseguia se mover, estava paralisada. Não entendia o que era a luz e não compreendia aquela voz. Pensava que se fosse um anjo, um santo, ou mesmo o filho do “cara”, deveria ter uma voz um pouco mais empostada e não aquele timbre de moleque na puberdade.

– Calma, disse a voz novamente, se quer me ver de verdade ligue a filmadora da câmera. Minha forma não pode ser captada pelas suas retinas, é necessário algum tipo de artifício tecnológico para poder me ver.

Amanda não pensou duas vezes, ligou o vídeo na câmera e conseguiu distinguir uma feição humanóide em meio a uma luz meio esverdeada. A sensação era estranha, pois fora do visor da câmera a luz era branca e forte, mas no vídeo a imagem era opaca, esverdeada e no meio do que parecia ser um rosto havia dois círculos vermelhos brilhantes.

– O que você quer? Perguntou Amanda após criar coragem de falar algo.

– Eu quero que vocês obtenham conhecimento. Disse a coisa do meio do mato.

– Conhecimento? Mas que conhecimento?

– Todo tipo de conhecimento.

Amanda ficou confusa, se não era anjo, santo, espírito-santo, deveria ser um ET, mas a resposta que foi dada não lhe contentou.

– Olha só, você é um ET?

– Eu? Eu sou o que sou, uma coisa que existe para além dessa dimensão.

– Ah, então você é um espírito…

– Algumas pessoas dizem isso, mas eu não sou só espírito, ainda tenho uma dimensão corporal.

– Hum… Sei… Mas você não é daqui da Terra, é?

– Já fui, pelos meus cálculos eu posso ter sido inclusive você…

– Caracas, sério?!

– Sim.

– Mas então você é do futuro?

– Sim e não, um dia, quando vocês tiverem “conhecimento”, vocês entenderão que tempo e espaço são apenas uma ilusões.

– Puts, você é filósofo e budista também?

Assim que Amanda falou isso um raio caiu do céu bem próximo ao parque. Amanda entendeu que havia sido o ET que enviara.

– Desculpe, disse Amanda um tanto afoita.

– Tudo bem, mas que isso não se repita.

– Ok, mas então, como você se chama?

– Milu.

– Milu?! Perguntou Amanda dando uma grande gargalhada.

Novamente outro raio mais forte ainda que o primeiro.

– Opa, foi mal, não me contive…

– Qual o problema com meu nome? Milu representa toda a essência cósmica.

– Ok, ok, não falo mais nada do seu nome. Mas, vem cá Milu, você é parente do ET de Varginha?

Quando o céu inteiro parecia que ia virar um grande raio, Amanda se adiantou:

– Certo, certo, foi mal, é que eu tenho essa coisa impetuosa de falar merda constantemente…

– Vou lhe desculpar só porque eu sei que você é uma humana ainda estágio inferior.

– Pô, não precisa desconsiderar também…

– Mas é a verdade.

– Tudo bem, mas, Milu, me diga uma coisa, porque você tem essa voz fininha?

– Ah sim, problemas com o meu condensador de luz em ondas audíveis à sua frequência primitiva.

– Primitiva?! Pensei que fosse porque você é um ET novinho e coisa e tal.

– Vocês humanos e a questão de tempo ainda…

– Primitivos, certo?

– Exato.

– Bom, Milu, mas e esse lance de “conhecimento”, o que eu tenho que conhecer afinal? É muita coisa pra pouco “tempo” de vida…

– Conheça o máximo possível, ainda mais porque logo tudo aqui acabará.

– Logo?

– Exato.

– Logo quando? Tipo, 2012?

– Exato. Aliás, como você sabe disso?

– Sério?! Pô, tem um tempo já que tem uma galera doidona dizendo isso, que vai mudar os pólos da Terra, que o sol vai lançar uma tempestade aqui, que o eixo da Terra vai se deslocar, que ela vai começar a girar pro outro lado, que um meteoro vai cair, que o sistema financeiro vai entrar em colapso total, enfim, são várias teorias…

– Subestimei seu conhecimento. De fato irá acontecer tudo isso mesmo.

– Tudo isso? Tipo, tudo de uma vez?

– Exato.

– Caracas, e você me fala isso numa boa?

– Claro.

– É porque não vai ser como você, né? Malandrão…

Mais um imenso raio.

– Desculpa, esqueci que você é nervosinho.

– O segredo é adquirir muito conhecimento enquanto a Terra não acaba.

– Muito conhecimento…

– Exato.

– E o que diabos a gente vai fazer com tanto conhecimento se tudo vai acabar?

– Bom, então, é…

De repente a luz apagou. Amanda ficou atônita com o ocorrido. Olhou para os lados, nada. Nenhuma sombra de Milu, aliás, nenhuma luz de Milu à volta. Não conseguia acreditar muito no que passara. Sentou-se no chão e se lembrou de Fátima. Não fazia ideia de que horas seriam, mas já era noite plena. Quando estava se levantando para ir embora, a luz aparece de novo e fala:

– Desculpe ir embora assim, é que me minha mãe me chamou. Mas agora sim, adeus! E lembre-se: adquira conhecimento!

Imediatamente a luz desapareceu e a noite ficou mais clara do que antes, parecia o final da tarde novamente. Amanda ficou meio zonza e reparou que estava mijada. Quando finalmente resolveu ir embora escutou um grito de Fátima falando para lhe esperar. Amanda parou e olhou muito desconfiada para Fátima.

– Você viu aquilo? Perguntou Fátima.

– Bizarro. Eu vi.

– Muito louco, como pode aquilo?

– Não sei flor, não sei… E o maluco se chamava Milu!

– Milu?

– É, Milu… Você não escutou quando ele disse?

– Peraí, eu acabei de ter uma longa conversa com Krishna ali no mato.

– Krishna? Ele era uma coisa de luz que só se via com filmadoras?

– Não! Era Krishna, tinha uma pele meio azulada e tal, mas ele me disse claramente que era Krishna, tinha até umas roupinhas douradas esquisitas…

– Maluco, maluco…

– É sério.

– Cara, passei muito tempo conversando com um ET-de-luz-espírito-evoluído-que-talvez-já-foi-eu chamado Milu…

– Sério?

– Sério.

– E o que ele disse?

– Que o mundo acaba em 2012…

– Sério?! Krishna também falou isso!

– Puta que pariu, vai ser assim mesmo então?

– É, acho que sim…

– E o que Krishna disse pra você fazer?

– Que era pra eu desaprender tudo que já havia aprendido e não aprender mais nada a partir de então… E Bidu?

– Milu…

– É, Milu…

– Na boa flor, sei lá… Só sei que a gente tem mais dois anos para tentar ser feliz…